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domingo, 2 de janeiro de 2022

Agradecendo 2021, recebendo 2022! - Mulheres de Poder


 

 

Isadora e Bella estão em sua casa.

- Cadê a Milla que não chega? – Diz Bella impaciente.

- Calma Bella, logo elas chegam. Aproveita pra relaxar e assistir a retrospectiva 2021.

- Eu não quero, só tem coisa ruim. Eu já vi uma na internet e foi horrível. – Responde Bella.

- Não é bem assim vai...  – Diz Isadora.

- Cheguei, meninas! – Diz Milla. - Estou muito animada com a nossa viagem de Réveillon. – Ela suspira aliviada. – Pensei que isso nunca mais seria possível.

- Até que enfim você chegou! – Responde Bella. – Agora só falta a Flor.

- Oi pra você também, Bella. Está tudo bem com você?

Isadora olha para Milla e estende as mãos como quem não entende nada.

Milla se ajeita próximo a Isadora.

Horas depois Flor chega.

- Eu acho que é melhor não irmos mais. Flor você é uma irresponsável! – Diz Bella irritada. – Vamos passar o Reveillon no meio da estrada.

- Não é pra tanto, Bella. – Interfere Isadora. – Se sairmos daqui agora chegaremos na praia a tempo de ver os fogos.

- Aconteceu alguns imprevistos – Diz Flor desajeitada. – Mas não quero atrasar vocês, nem começar o ano brigando com as minhas melhores amigas.

- Mas não foi combinado ir mais cedo? O que tanto você tinha pra fazer? – Diz Bella.

- Eu tive imprevistos. – Esta energia está péssima para a entrada do ano novo, vou precisar de horas para equilibrar o meu chakras.

- Calma Flor. – Diz Milla. – Eu voto pra gente sair daqui agora, e vai dar tudo certo.

- Eu também. – Diz Isadora.

- Vamos arriscar. – Confirma Bella, aparentando mais calma.

- Então simbora, meninas. – Diz Isadora.

 

Todas entram no carro, e seguem rumo a viagem.

 

- Eu conheço um caminho alternativo, acho que estará menos trânsito. O que vocês acham? Sugere, Flor.

- Eu super topo, deve ta o maior transito pelo caminho normal.

- Que caminho é este, Flor? Você conhece mesmo? Porque logo já vai ficar noite. – Pergunta Isadora.

- Logico que conheço né, gente. Vem comigo que vocês passam de ano, literalmente.

Todas riem.

- Por mim, tudo bem. – Diz Bella. – Eu não quero ser a estraga rolê do final de ano depois da maior pandemia o século.

- OK. Que bom, como todas concordaram, vamos embora.

 

Flor está dirigindo pela estrada.

 

- Gente, acho melhor parar no próximo posto de gasolina.

- Você não abasteceu o carro, Flor? – Pergunta Isadora.

- Lógico que sim!

- Ah ta, e quer parar no posto por quê?

- Porque eu ouvi um barulho estranho.

- Ahhhhhh não! – Falam todas juntas.

- Parem de brigar, gente. Vocês me deixam mais ansiosa. – Resmunga Flor.

- Eu sabia que não chegaríamos a tempo na praia pra pular as setes ondas. – Bella revira os olhos.

Flor avista um posto de gasolina, e encosta. Após o frentista falar um tempo com Flor, ela volta para o carro.

 

- Gente, acho que não vamos conseguir sair daqui agora. – Diz Flor sem graça.

- Como assim, Flor? – Você ta louca né? – Diz Bella.

- E você está muito grossa, Bella. – Responde Flor.

- Calma gente! – Interfere Isadora. – Não começa vocês duas. – Por que não podemos seguir viagem?

- O rapaz disse que tem uma peça solta, e que é melhor a gente não seguir viagem. Ele disse que vai ligar para um primo dele que é mecânico, e disse que logo ele vem pra cá.

- E você acha que alguém vai vir pra este fim de mundo na véspera de ano novo? – Mila gargalha. – Você é muito sonhadora, amiga.

- Logico que ele vem! Não ta louco, vai mentir pra que?

- Porque as pessoas mentem, Flor. Simples assim.

- Não acredito. – Vou lá falar com ele.

Não! – Diz Isadora. – Vamos pensar aqui juntas. O que mais podemos fazer, outras opções.

- Não tem outras opções, Isadora. Véspera de ano novo, ninguém está trabalhando hoje a esta hora.

- Mas e o seguro? Eles precisam vir, porque trabalham com plantão. - Diz Flor.

- Sim, um funcionário para a cidade toda, o estado, quem sabe... de qualquer jeito, hoje fica difícil

- Mas vamos chamar, não vamos ficar paradas. – Diz Milla. – A hora que chegar, chegou.

- Você não fez a revisão neste carro, Flor. Foi só o que eu te pedi. – Diz Bella.

- Eu não consegui. – Responde Flor com a voz chorosa. – Mas eu quase não uso este carro.

Todas olham ao mesmo tempo para Flor.

- Ta bom, vou ficar quieta. – Resmunga Flor.

- Melhor mesmo. – Diz Bella irritada.

- Por que você está pegando tanto no meu pé? – Flor pergunta. – Que viagem chata com você com este mau humor. Preciso alinhar os meus chakras antes da virada!

- Para, Flor! Me deixa em paz. – Diz Bella irritada, e sai de perto.

Milla e Isadora se olham.

Isadora vai atrás de Bella.

 

- Eu não to entendendo nada! – Diz Flor.

- Calma, amiga. Eu também estou achando ela super estranha.

- Mas eu não tenho culpa, Milla.

- Eu sei, ninguém tem.

- E tudo fica brigando, que chata! Na nossa primeira viagem depois da pandemia fica estragando tudo.

- Não é bem assim né, Flor. O combinado foi de irmos com o seu carro porque era o mais novo, e porque você confirmou que faria a revisão bem antes.

- Eu sei, mas acabei esquecendo. Final de ano precisamos fazer muitas coisas.

- Eu sei, mas todo mundo precisa fazer isso...

Isadora e Bella retornam.

- Desculpa, meninas. Eu estou muito nervosa, mas na verdade não é com vocês.

Ambas ficaram quietas.

- É que este é o primeiro ano, depois de muito tempo sem contato com o pai da Sophia, e este é o primeiro final do ano que ela fica longe de mim.

- Mas que exagero, Isadora, ela não é só sua filha...

-Cala a boca, Flor. – Diz Milla entre os dentes.

- Eu sei disso, Flor. Mas é um passo difícil.

- A sua filha não vai ser criança pra sempre! Ela vai decidir os próprios passos.

- Eu vou te socar, Flor. – Diz Isadora.

Flor percebe que Bella está chorando e decide se calar.

- São muitos sentimentos envolvidos, eu sei que parece egoísta.

Flor olha para a amiga.

- Sim, é um pouco egoísta. Mas não é fácil mudar hábitos e pensamentos de um dia para o outro. – Diz Bella. – Eu conversei um pouco com a Isadora. E resolvi vir aqui falar com vocês.

- Amiga, eu te entendo. Quer dizer, quase te entendo, porque não tenho filhos. Mas me coloco no seu lugar, e imagino que deve ser uma loucura, ainda mais depois da pandemia. – Diz Milla.

- Sim, foi uma decisão do juiz. Eu jamais deixaria...

- Então, me desculpa Bella, mas amor de verdade não é isso aí não. E não adianta vocês me olharem com esta cara feia. Veja só, ela perguntou pra garota o que ela gostaria? A menina tem 11 anos, sente falta do contato com o pai, ela sempre foi próxima e querida pela família dele, a gente se sente amada quando as pessoas, no caso, nossos pais, querem estar com a gente.

- Isto é verdade, o meu pai me fez muita falta durante a minha infância e adolescência. – Resmunga Milla. – Na verdade, a família toda, primas e avó.

- Não é abrir mão dela, mas abrir mão da vaidade de só você estar com ela e saber tudo sobre o que acontece na vida dela. Sua filha é outra pessoa, Bella. E me espanta você estar se comportando assim.

- Acho que a pandemia tem a ver também, ficaram tanto tempo juntas... -  Diz Isadora.

- Sempre foi só nós duas. – Suspira Bella. – Confesso que a animação dela em passar o ano com a família do pai me incomodou bastante.

- Acho que incomodou muito né, amiga. Mal estava falando com a gente, só pra dar patada.

- Desculpem, esta é uma situação nova.

- Se acostume porque terão várias, a Sophia ta crescendo, é o ciclo da vida. 

- Nossa, o que é aquele tumulto ali! – Milla aponta para a televisão. Todas vão até la´

 

 Noticia: Houve, agora pouco, um desmoronamento na estrada alternativa que leva ao litoral norte, ainda não sabemos se existem vítimas. Mas devido ao fluxo do final de ano, é provável que existam. 

 

As meninas se olham assustadas.

- Eu não acredito que a gente se livrou disso. – Diz Isadora com as mãos na cabeça.

- Gratidão Universo. Diz Flor erguendo as mãos.

- Não dá pra acreditar! – To me tremendo. – Olhem as minhas mãos. – Diz Milla.

Bella continua calada.

- Eu não to acreditando. Parece que fomos livradas da morte. – Sussurra Bella.

- Depois de dois anos de pandemia, morrer soterrada é sacanagem né. – Responde Milla.

- Que bom que vamos passar a virada do ano num posto de gasolina. – Diz Flor. – Me desculpem pela revisão não feita, meninas. Mas eu to feliz agora. – Diz Flor extasiada.

- To feliz, meninas, emocionada. – Confessa Milla.

Todas se abraçam.

- Nada é por acaso. – Flor fala entre os soluços.

- É bom ter vocês! – Grita Isadora.

A chuva começa a cair.

- Vem vamos para o coberto, esta chuva é para limpar o que teve de ruim no ano de 2021. – Afirma Milla.

- E pra desbarrancar os morros também.

- Quieta Flor. – Exige Isadora.

- Vamos só agradecer!

- Olha o que eu trouxe! – Diz Milla com três garrafas de cerveja e uma de água. E começa a entregar para as amigas.

- E pra mim? – Pergunta Flor.

- Você não vai beber por que está dirigindo, e não fez a revisão do carro.

- Mas foi o universo que salvou as nossas vidas, porque paramos aqui.

- Flor, não tenta se livrar da revisão com um desmoronamento. – Diz Bella.

- Agora brinda com a sua água e não reclama. Você é a motorista da vez. – Milla entrega as garrafas para as amigas.

- Falta 10 minutos para a meia noite, cada uma agora faz o seu brinde. Agradecendo o ao que se foi, e recebendo o ano que chega.– Sugere Isadora.

- Eu brindo a todas as pessoas que tiveram mais uma chance de prosseguir nesta jornada, aos sobreviventes da covid. – Isadora ergue a garrafa. - E peço que para o novo ano, que tudo seja controlado, que a vacina enfim consiga colocar fim nesta doença horrível.

- Brindo a nossa oportunidade do aprendizado de hoje. – Milla ergue a garrafa. – E a todas as outras que vivemos. E para o próximo ano, que eu seja a cada dia mais forte, e que consiga ajudar outras pessoas.   

- Eu brindo as melhores amigas que o universo poderia me dar, a minha recuperação e capacidade de fazer arte até diante das desgraças do mundo. Para o próximo ano, que seja um ano melhor para todas as pessoas, e eu continue com vocês, e comigo em pleno estado de criação.

- Eu brindo a saúde da minha família, das minhas amigas, e da minha filha. Gratidão por me amarem de verdade. Amar não é sobre dizer apenas o que eu quero ouvir, é ter coragem para dizer o que precisamos ouvir. – Diz Bella emocionada. – Quero ter a chance de abraçar a minha filha novamente, e aprender a respeitar as suas vontades como ser humano.

- Que lindo, amiga! – Diz Milla.

- Ahhhh e por último quero agradecer a Flor por não ter levado o carro para fazer revisão e ter nos livrado de um deslizamento monstro! – Ela ri. – Só que não! Tinha que ter revisado o carro, sua maluca.

- Até que enfim um bom reconhecimento! – Flor levanta sua garrafa de água comemorando – Te amo amiga, amo todas vocês.

- Olhem, meninas! – Grita Isadora. – Já 00:00 h, vejam os fogos, já é 2022!

 

Todas gritam num coro.

 

- FELIZ ANO NOVOOOOOOO!



Texto: Grazy Nazario

domingo, 31 de janeiro de 2021

O Rei da Casa - Crônicas

 

Milla abre a porta empolgada.

- Chegou na hora do brinde! – Ela sorri. – Eu sei que não podemos nos abraçar, mas como é bom te ver.

- Oi meninas! – Responde Isadora com certo desanimo. – Gente, podem abaixar um pouco o som? – Ela senta no sofá.  

Bella, Flor e Milla arregalam os olhos:

- Nossa, que ânimo em plena sexta-feira. – Comenta Flor.

- Eu sei... – Isadora suspira. – Tive um plantão daqueles. Esta covid19 quando não mata de um jeito, ferra de outro.

- Imagino, amiga. Olha estávamos todas de máscara, só tiramos agora para o brinde. Não dá pra beber de máscara. – Disse Milla enquanto riu. 

- Passei em casa pra tomar banho, não queria vir direto do hospital, mesmo já infectada e curada preciso evitar transmitir os vírus de outra forma.

- Foi bacana da sua parte vir, mesmo que um pouquinho. – Diz Bella. – Agora que as coisas estão mais ou menos voltando ao normal... - Fase laranja, quase amarela. - Ela ri sem jeito. - Era importante ter este momento, não comemoramos o aniversário de ninguém.

- Eu também estava com saudades. – Diz Isadora. – Mas passei em casa e me aborreci. É muito louco precisar brigar por certas coisas.

- O que aconteceu? -  Pergunta Milla. – Segura este copo, relaxa e nos conte tudo!

- É o meu filho.

- O que tem ele? – Pergunta Bella.

- Ele não quer colaborar com nada. Antes eu já fazia tudo, mas agora a minha sobrinha esta passando uns dias em casa, e pedi pra ela fazer algumas coisas.

- E o que tem isso? – Rebateu Flor. – Estranho precisar pedir isso para o seu filho, só mora vocês dois na mesma casa, pensei que ele fazia o básico.

- Muito chato fazer coisas de casa! – Milla revira os olhos. – Ainda bem que moro com minha mãe.

- Isto não diminui em nada sua responsabilidade, minha filha! – Disse Bella. – Se você faz a sua mãe de empregada ta igual o filho da Isadora, só que pior, porque é adulta!  

- Não acredito que estou ouvindo isso! – Flor bateu o copo na mesa e foi até a cozinha. Voltou com uma latinha de cerveja na mão.  – Pelo amor de Deus, em pleno século XXI você ta sofrendo porque seu filho não quer ajudar, ou melhor, fazer a parte dele nos afazeres domésticos. É sério isso?

Isadora fica sem graça, e olha para as amigas.

- Você nunca ensinou isso a ele? Prefiro não falar sobre a Milla, porque se fizer isso serei obrigada a brigar com ela!

- Calma, gente! – Milla riu. – Eu pago uma diarista super bacana, e ajudo também em casa. Só disse que era chato.

- Disso todo mundo sabe Milla. – Responde Bella. – Mas a gente sabe como você não é fã de fazer muitas coisas.

- E quem é? – Responde Milla irritada.

- Eu! – Diz Isadora prontamente. – Eu sempre fiz tudo sozinha. Nunca pedi nada pro meu filho, dava pra eu fazer eu fazia. E ele é homem, vocês sabem que eles não têm muito jeito pra fazer coisas de casa.

- Pelo amor, que papo mais anos 50! AFFFFFF – Disse Flor e revirou os olhos. – Meus ouvidos estão sangrando!

- Não exagera com a Militância Flor! – Isadora virou um copo cheio de cerveja. – To ficando mais brava com vocês do que com meu filho.

- A questão é que é mais fácil fazer do que ensinar. Ok.  Mas e se o seu filho fosse uma menina, você ensinaria ou não? – Pergunta Bella.

- Mas ai não tem comparação né, gente! – Insiste Milla. – A mãe da gente já manda a gente fazer tudo desde pequena. Acho que por isso odeio. – Milla gargalha.  

- Como que não tem comparação! – Flor se exalta. – Você aprendeu desde pequena, seria a mesma coisa caso fosse um menino.

- Isso é o que a gente queria! – diz Milla.

- Sim, por isso mesmo temos que fazer. Eu não tenho filhos, mas isto está claro pra mim. Precisamos passar valores diferentes do que tivemos para meninos e meninas, ou nada vai mudar.  

- Você odiar fazer estes serviços é só mais um exemplo de que isso não tem nada a ver com gênero. – Insiste Bella.

- Mas é que eu sempre trabalhei e estudei... – Resmunga Milla.

- Milla, se for assim ninguém tem tempo de fazer nada, mas alguém precisa fazer! – Insiste Flor.

- Ah gente, mas agora ele já ta moço. – Resmunga Isadora. – O problema foi esta pandemia, eu levava muito bem as coisas porque era só nós dois. Agora parou a escola e todas as coisas possíveis, e eu to trabalhando feito uma louca no hospital...

- Não é possível, você quer viver como se o seu filho fosse o rei da casa! – Flor se irrita. – Eu não agüento manter um bom humor com uma fala dessas.

- Calma flor! – Pede Bela. – Falar assim não adianta nada, só deixa ela mais nervosa.

- Nossa gente, pra que eu fui comentar do meu cansaço. – Isadora respira fundo. – Só queria relaxar e aproveitar que amanhã é minha folga.

Isadora levanta a vai ao banheiro.

- Caramba meninas, vocês pegaram pesado hoje hein! -  Reclama Milla e vai atrás da amiga no banheiro.

Bella e Flor se olham.

- Nossa, ainda não me acalmei. Eu não me conformo que a pessoa queira ser empregada, por isso tem uma par de boizinho se achando pra cima da mulherada. – Suspira Flor. – Querendo tratar mulher como empregada!

- Eu sei Flor. Mas ela não enxerga assim, fica calma, não precisa brigar também, né. – Diz Bella.

- Dá vontade é de tacar foco nesta macharada folgada!

- Mas ele tem 17 anos!

- Sim, e logo terá 20, e 21, 24, 32.... E vai neste ritmo, “alguém faz por mim”.

- Calma, pode ter salvação.

Flor suspira.

- Eu acho que estou estressada mesmo! – Ela ri. – Muito tempo de quarentena e descobrimos que nossa amiga está se fazendo de escrava e nem enxerga, é problema viu.

Milla e Isadora voltam.

- Meninas, eu vou embora. – Diz Isadora com a voz ligeiramente mais calma.

- Não precisa ir Isadora. - Diz Bella. – Pegamos pesado. Vamos ficar de boa, não é Flor? – Bella olha de canto de olho para a amiga.

- Sim. – Responde Flor a contragosto. – Desculpa, senta ai e fica de boa.

Isadora senta novamente.

Flor bebe uns goles de cerveja, observando a amiga.

- Permita-me dizer mais uma coisa? – Flor sorri. – Mesmo se você não permitir eu vou dizer. - Ela afirma em tom descontraído. 

- E a novidade, Flor? – Diz Milla.

- É que assim.... Precisamos mudar está visão de que as mulheres precisam fazer tudo sozinhas. Por que temos que carregar o mundo nas costas? Reclamamos na internet sobre as atitudes dos homens, e não exigimos que nossos filhos arrumem a cama?

- Você nem tem filho, Flor! – Ironiza Milla.

- Eu sei Milla. Mas você entende o que eu estou falando? – Flor passa as mãos nos cabelos. – O mundo vive uma pandemia louca, muitas pessoas morreram e continuam a morrer. A nossa amiga trabalha na linha de frente contra a doença, chega cansada, e não tem o apoio da própria família. O que ela estaria passando como valores ao filho?

- Isso é verdade. – Diz Bella. – E se algo acontece com ela?

- Sim, eu fiquei doente. E alguém foi pra minha casa, o meu filho ficou perdido.

- Ele não é mais uma criança, se algo acontecer com você, ele precisa ter noção do que é preciso fazer, em outros sentidos também. – Completa Flor com a voz mansa. – Você pode fazer tudo, se assim escolher. – Quem sou eu pra dizer o que você deve fazer?

- Uma feminista do caraio! – Riu Milla. – Mas isso é verdade.

- Eu sei, mas não é fácil mudar hábitos. - Lamenta Isadora. 

- Isso não é mesmo Isadora. Mas não é impossível. – Bella abre um sorriso. – E não é só por você, mas por ele também.

- Isso é verdade. E também o que você vai deixar para o mundo. – Mães super protetoras são péssimas.

Isadora torce o nariz e a boca.

- Mas você não se contenta neh Flor!

- Jamais! – Ela sorri. – Pra mudar precisa fazer diferente. Eu nunca imaginei que veria aquele menino tão lindo sendo acostumado assim, nessa vida mansa.

- É a idade também. – Ameniza Bella. – Os hormônios e tals.

Milla riu.

- Na minha época os hormônios faziam outra coisa.

Todas riram.

- Posso perguntar mais uma coisa?

- Ai meu deussssss – Grita Isadora simulando desespero. – Eu já entendi sobre os direitos iguais e tudo mais, você tem toda razão, Flor! Agora deixa eu tomar essa cervejinha e ouvir este som gostoso porque eu quero relaxar.

- Ah sim. – Flor riu. – Relaxa sim, e depois vamos sortear quem vai lavar a minha louça lá em casa!

Todas olharam Flor.

- Ta doida!?

- Não! Kkkkkkkk – É que como eu conseguir fazer você dividir o seu serviço de casa, todas vocês podem dividir comigo!

 


Imagem: Site "Pra ficar Charmosa. 


FIM

Não é só no circo que tem palhaço

  Flor chega em casa furiosa. Joga a bolsa no sofá, bebe água e olha o celular. Percebe que tem pelo menos dez mensagens. Ignora todas e b...