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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Crônicas do dia a dia - O primeiro NÃO a gente nunca esquece


Sentadas de frente para a piscina, Flor e Isadora mexem no celular, quando ouvem a voz de Milla.

- Podem parar com esta palhaçada de ficar no celular. – Eu quero uma cerveja, to morrendo de sede.
- Senta ai maluca! – Diz Flor enquanto enche seu copo.
- Por que tanta agitação? Hoje ainda é sábado! – Resmunga Flor.
- Vamos falar dos detalhes da viagem – Diz Isadora apressada.
- Calma, primeiro eu quero falar do Evandro. – responde Milla.
- Quem á este? – Isadora fez cara de espanto.
- A Flor conhece.
- Conheço? – Flor fez cara de ueh.
- Lógico! – Responde Milla irritada. – É aquele cara que conhecemos juntas no aniversario da Ju...
Flor continua calada, e pensativa.
- Vocês ficaram conversando horas sobre a caça aos animais...
- Lógico que me lembro! – Flor dá uma risada. – Ele era amigo deste, ou primos, não sei bem.
- Então... Acho que ele é gay! – Diz Milla. – Acho não, tenho certeza. – Ela torce o nariz.
- E por que você tem tanta certeza disso, Milla? Ele falou alguma coisa? - Pergunta Isadora.
- Tem certas coisas que não precisa dizer, né gente, é só prestar atenção nas atitudes.
- Ele saiu com você e negou fogo? – Flor colocou a mão na boca com os olhos arregalados.
- Não. – Diz Milla. Pior que isso!
- O que pode ser pior que isso neste caso? – Isadora põe a mão no queixo pensativa. – Diz logo que to curiosa!
- Eu chamei ele três vezes pra sair e ele me esnobou, não quis nem me conhecer, tomar alguma coisa... Nada!
- E o que isso tem a ver? – Isadora levanta as sobrancelhas.
- Como assim amiga, ele só pode ser gay!
Flor balançou a cabeça.
- Essa foi a coisa mais machista que você já disse!
- Machista mesmo, com certeza, Milla. - Repetiu Isadora.
- Então me diz por que ele não quis sair comigo? – Ela bufa. – Por um acaso eu sou feia, desinteressante, sem graça? Por que um homem heterossexual não sairia com uma mulher como eu?
- Pelo mesmo motivo que não saímos com qualquer homem! – Flor responde imediatamente.
- Você ta falando serio, Mila? – Isadora gargalhou. – Você não sabe ouvir um NÃO de um cara. Ta andando muito com homens, não é possível!
- Não é isso. – Mila começa a falar devagar. – É que não da pra entender por que o cara se recusou a sair comigo. – Ela mexe nos cabelos. – Mesmo que fosse só pra gente conversar e se conhecer. Se ele é solteiro e eu também, na minha visão ele é gay e não quis ser indelicado.
- Me lembrei de um filme agora. – Isadora começa a rir. – É com aquele ator Mel Gibson, ele fica ouvindo os pensamentos das mulheres e certa altura do filme diz pra uma mulher que ele é gay, só pra não magoar ela.
Flor começa a rir.
- Eu me lembro deste filme. É muito bom!
- Para, gente! – Interrompe Milla com a cara fechada. – Que mané filme, vamos para o meu assunto. Foco!
- Se for pra falar em foco, temos que falar da viagem que ninguém lembrou que existe! - Resmunga Isadora.
- Daqui a pouco Isadora, calma. – Milla levanta as mãos. – Isso é coisa séria.
Diz Flor, você acha que ele é gay, ele dá pinta?
- Gata, eu não vi ele dando pinta, não. – Flor bebeu cerveja. – Amiga, seria legal a gente entender que os caras também podem dizer não, do mesmo jeito que nós dizemos.
- Acho que estão tudo mole! - Bufa Milla.
- Você não sabe o que quer! – Grita Isadora. – Se os homens vão pra cima são atirados demais, se não vão são gays. Isto é pensamento do século passado, Milla, as coisas mudaram.
- Mudaram pra pior.
- Milla, pensa comigo. Antigamente, nessa mentalidade sua ai, só os homens chegavam nas mulheres, a gente não tinha esta liberdade de tomar a iniciativa.
- E o que isso tem a ver. – Milla retruca irritada.
- Tem a ver que a gente falava Não pra vários caras que a gente não queria ficar. E os homens atiravam pra todos os lados, por que as mulheres viam as relações de forma diferente.
- Não to entendendo nada! – Milla responde decepcionada.
- O fato é que o cara pode não ter ido com a sua cara. – Isadora jogou as mãos pro lado. – Tipo o santo não bateu mesmo.
- E por que ele me responde as mensagens?
- Por que não quer ser indelicado? – Diz Flor.
- É... – Milla lamenta. – Pode ser...
- Sim. E isso não é o fim do mundo, gata. – Flor mexe nos cabelos da amiga. – Força na peruca! Quem arrisca convidar corre o risco de receber não, ou sim. Este é o preço da liberdade conquistada pelas mulheres.
- A parte chata você quer dizer neh! - Milla revira os olhos.
- São consequências. – Responde Isadora. – Se o cara não topou com a sua cara, pra que sair com você? Vai fazer você perder o seu tempo e ele o dele, assim pelo menos age na honestidade.
- A honestidade as vezes atrapalha. – Milla exclama. – A gente perde chance de conhecer as pessoas.
- Não perde nada! Quando você não quer nem adianta insistir. – Flor a olhou nos olhos. – O homens também tem o direito de dizer não, e temos que aprender a conviver com isso e seguir nossas vidas.
- Então bora seguir a vida, e chega desse assunto. – Diz Isadora.
O celular da Flor toca.
- Vixe, é o amigo do seu suposto gay. 
Todas se olham, Flor levanta para atender. Minutos depois senta-se na cadeira com os olhos arregalados.
- Vocês não vão acreditar.
- Diz logo! – Milla soltou um grito. – Ele disse que o seu cara é gay mesmo!
Flor gargalha.
- Acho que eles são um casal.
- Por esta  eu não esperava. – Isadora arregala os olhos.
- Jura! – Grita Milla ao gargalhar. – Eu falei, isso tava muito estranho, eu nunca tinha visto isso.
- Eu to brincando.  – Flor balança a cabeça, e começa a rir. – Ele me chamou pra sair
Milla arregalou os olhos.
- Mentirosa, sem graça!
- Eu disse que ia pensar, por conta da viagem e de não querer me envolver com ninguém agora. Espero que ele entenda e não me chame de lésbica por conta disso.
- Engraçadinha! – Milla revira os olhos. – Vamos falar da nossa viagem.
- Melhor escolha impossível. - Diz Isadora satisfeita.




Texto: Grazy Nazario.





sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Crônicas do dia a dia - Sogra briguenta


- Meninas eu tive uma briga feia com meu filho! – Gritou Isadora.
- É normal brigar com os filhos. – Bella gritou da cozinha. – Larga de tanta aflição.
- O problema é brigar por que ele ta namorando. – Isadora pigarreou. – E briguei também com a namorada dele.
- Não me diga que você é daquelas mães que se sentem dona da vida do filho. – Disse Flor. – Você tem vida própria, pelo amor!
- Você fala isso por que não tem filhos Flor, o Matheus ta saindo com uma menina pavorosa. É uma safada!
Milla gargalhou.
- Por que você ta xingando a menina? Já vi tudo, é a velha rixa entre sogra e nora!
- Só pode ser isso! – Flor confirmou.
- Não é nada de rixa! A menina não sabe o que quer, uma hora namora e outra termina, tem um ex-namorado que fica perturbando... A cretina fica fazendo meu filho de idiota.
- Mas isso é normal né Isadora, são adolescentes! – Bela se sentou no sofá.
- Não acho normal não, se quer assumir compromisso que saiba o que ta fazendo.
- Nossa você vai querer casar eles quando mesmo?! – Flor gargalhou.
Isadora se enfureceu e colocou as mãos na cintura.
- Esta menina é uma safada, sem vergonha, pra não dizer uma vagabunda de beira de esquina!
- Êpa! Pera ai. – Bela se levantou. - Então todas nós somos tudo isso, inclusive você! Quando você aponta o dedo pra uma mulher, ele ta apontado pra você também.
- Calma Bela, a menina também não é santa. – Disse Milla.
- Ninguém é! – Gritou Flor. – Eu tô com a Bela. Se for assim nenhuma de nós presta.
- O seu filho esta conhecendo pessoas, como ela. – Bela disse com calma.
- Mas então por que querer se comprometer e ficar toda hora terminando e de rolo com o ex? – Milla Cruzou os braços.
- Cada um tem um jeito. Se o seu Matheus não tá curtindo o que ela ta fazendo que saia fora, que namore outra. Tod@s ficamos confus@s as vezes.
- Até parece que é fácil assim neh. – Isadora fechou o cenho. - Tô com pena do meu filho, coitado.
- Mas todo mundo sofre por amor Isadora, isso é normal. – Flor suspirou. Esta se preocupando a toa.
- Sofrimento é ouvir as suas falas machistas. – Bela cruzou os braços. - Imagine se o Matheus fosse uma menina!
- Ia ser terrível também. – Isadora grunhiu. – Mas mulher quando quer mandar...
- Homem bate, humilha, faz de tudo quando quer mandar também. – Flor insistiu.
- Mesmo assim...
- Não tem isso Isadora, as mulheres conquistaram certa independência, mas as questões machistas são muito fortes. – Bela olhou pra amiga. - E você ficar falando que a menina que o seu filho ta saindo é vagabunda, por estar indecisa ou conhecendo pessoas, como ele também faz, não ajuda em nada.
Isadora ficou quieta, com os olhos arregalados.
- Não tinha pensado por este lado.
- É que a gente costuma olhar só o nosso lado. – Disse Flor.
- Flor você não tem filhos, não entende como é difícil esta fase.
- Eu não preciso ter filhos Isadora, eu tenho a mim, as minhas experiências, de amigos, sabemos que às vezes o amor não bate com a pessoa que a gente quer, ou estamos em vibes diferentes, daí sempre tem alguém que se machuca. Relações são difíceis, isso não é segredo.
- Isso é verdade. – Disse Milla.
- Não sei nem o que dizer. – Isadora suspirou. – Pelos filhos a gente fica cega. O que eu tô falando não tem nada a ver mesmo. – Ela suspirou.
- Eu sei que você não é má pessoa, e que ta querendo defender o seu filho. Mas eles precisam aprender a se defender sem colocar a culpa em ninguém.
- E a culpa sempre é da mulher né! – Flor bufou. – Isso cansa. Meninas também querem se divertir, tipo como nós também fazemos e meninos sempre fizeram.  
- E isso não quer dizer que não fazemos umas palhaçadas as vezes, todo mundo faz! – Disse Bela. - Somos humanas.
- É claro que erra, todo mundo pisa na bola as vezes. Então diga que ela é mau caráter, traíra, ou infeliz... Fala do que ela fez e não pelo gênero. Isso é horrível!
- Isso não adianta nada Bela. – Milla revirou os olhos. – Nada a ver não xingar a pessoa do jeito que a gente quer, estamos acostumadas a falar essas coisas, na hora do nervoso sai.
- É só desacostumar ueh! Ninguém nasceu dizendo isso. Aprender outras coisas faz bem, evolui!
- Nós mudamos aos poucos, outras pessoas também. Assim as crianças não veem nada disso e não repetem. Quando vai ver, daqui a 400 anos vai estar praticamente extinto xingar uma mulher de vagabunda, puta ou qualquer coisa dessas.
- Sim, vagabunda só se ela não trabalhar. – Flor gargalhou.
- Vocês estão certas meninas. – Isadora suspirou. – Fiquei até com vergonha agora.
- Bom é você ver que este não é o caminho. - Disse Bela. - Eu sei falando de filhos é difícil controlar. Eu fico preocupada com a Julia também, e ela só tem 12 anos, mas quando começar a namorar não vai ser fácil.
- Eu sei, vou pensar mais nisso que você disse. – Isadora quis chorar. - Mas continuo preocupada, eu vi o meu filho chorando tanto, fiquei morrendo de dó! Acho que ele nunca mais vai ficar normal de novo ou vai demorar muito. Já faz uma semana que ele tá mal.
- Isso passa, todo mundo já chorou por isso. – Disse Flor olhando as unhas.
- Logo ele vai ficar bem. – Disse Milla. – Eu sei bem o que é isso. – Ela riu.
- Quando isso passar vou comemorar. Nem que seja com beijinho e brigadeiro, por que é digno de uma festa!
A porta abriu.
Matheus entrou em casa cantarolando.
As quatro meninas pararam de falar e se olharam.
- O que você tem? – Isadora colocou a mão na testa do filho. – Você estava chorando feito uma criança ontem a noite.
- Eu to bem mãe.
- E a Aninha? Vocês estão bem?
- Mais ou menos. – Disse Matheus. - Ah mãe eu to falando com a Flavinha, a menina é mó gente boa. A gente ta marcando de ir no cinema amanhã.
Isadora arregalou os olhos.  
- Entendi filho.
Na cozinha Isadora abriu a geladeira.
- Meninas, alguém quer bolo de chocolate!? - Isadora gargalhou. 

Texto: Grazy Nazario.





Não é só no circo que tem palhaço

  Flor chega em casa furiosa. Joga a bolsa no sofá, bebe água e olha o celular. Percebe que tem pelo menos dez mensagens. Ignora todas e b...